Simbologia e Tarot: quando as cartas explicam o comportamento humano e nos dão um abanão gentil
- 10 de nov. de 2025
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Há algo de profundamente humano na nossa tendência para procurar sentido em tudo, nos gestos, nos ciclos, nas relações… e, claro, nas cartas. O Tarot, longe de ser um exercício de adivinhação simplista, funciona como um verdadeiro laboratório simbólico onde reflectimos o que somos, o que evitamos e o que desejamos, mesmo quando fingimos que está “tudo óptimo, obrigada”.
A simbologia é o idioma secreto do inconsciente. Cada arcano nasce para “pôr em conjunto”, como diria o velho symbállein grego, aquilo que vemos e aquilo que sentimos. O Louco não fala de irresponsabilidade; fala de coragem. A Morte não anuncia tragédias; anuncia renascimentos, ainda que às vezes nos faça suar. O Diabo não nos julga, apenas nos lembra que, sim, continuamos agarrados a hábitos que jurámos largar na segunda-feira… daquela semana que nunca chega.
No fundo, o Tarot funciona como um espelho elegante e um pouco atrevido, não nos diz o que fazer, mas devolve-nos aquilo que já sabíamos e não queríamos admitir. E fá-lo com uma dignidade que a Psicologia só alcança quando dorme bem. Que me perdoem os psicólogos pela minha soberba afirmação. Os símbolos são filtros que revelam padrões, emocionais, cognitivos, relacionais e mostram como cada pessoa se movimenta na vida, entre necessidades, desejos, medos e estados de alma dignos de novela.
Crenças, falsas crenças e arcanos “mal compreendidos”
Grande parte das distorções que vemos na leitura das cartas nasce das crenças e, sobretudo, das falsas crenças que carregamos para dentro da consulta. A sociedade contemporânea adora rótulos rápidos: se tem caveiras, é mau; se tem anjos, é bom; se brilha, é positivo; se assusta, vamos fingir que nem vimos. Este hábito de catalogar tudo em prateleiras emocionais simplistas empobrece o poder simbólico do Tarot e reduz a sua profundidade a um “like” ou “não like”.
Os arcanos chamados “negativos” são as vítimas preferidas destas crenças precipitadas. A Torre? “Ai meu Deus, desgraça!” quando, na verdade, poucas cartas são tão libertadoras. É ela que derruba o que já não se sustenta, que desmonta crenças limitadoras, que faz cair o castelo de ilusões onde tantas pessoas vivem confortavelmente… até descobrirem que aquilo não tinha porta de saída.
A Morte é outra injustiçada. Muitas vezes associada ao medo, raramente associada à verdade. A verdade de que crescer é despedir-se, transformar-se, passar para o próximo capítulo. É a carta que nos ensina que a vida avança quando deixamos de “carregar mortos vivos emocionais” às costas.
E o Pendurado? É visto como bloqueio, quando em muitos casos é a pausa necessária para quebrar padrões, suspender crenças e ganhar outra perspectiva, aquela que não chegaria enquanto continuamos a insistir nas mesmas estratégias de sempre.
A falsa crença mais difundida é a de que o Tarot “adivinha”; a segunda é a de que assusta; a terceira, a de que condiciona. A verdade? O Tarot ilumina, clarifica, provoca reflexão e desconstrói. Não manda, não impõe, não controla: convida.
E as crenças colectivas sobre o Tarot?
Na sociedade contemporânea, o Tarot é muitas vezes colocado entre dois extremos caricaturais: ou é “coisa de bruxas”, ou é uma moda espiritual de fim de semana. Raramente é reconhecido como o que realmente é, uma linguagem simbólica poderosa, sofisticada e milenar, capaz de explicar comportamentos humanos com uma precisão que faz corar meia dúzia de manuais de psicologia. A minha soberba está desmedida. Não pretendo com estes apontamentos desacreditar algo em que tanto acredito, reconhecendo os seus benéficos, mas não posso continuar a manter o Tarot num canto escuro, por ser uma ferramenta quando bem aplicada, tão fiável e elucidadora.
Estas crenças contemporâneas, umas cómicas, outras teimosas, afastam as pessoas do verdadeiro valor das cartas, a capacidade de desarmar narrativas internas, questionar decisões automáticas, desmantelar crenças limitadoras e, acima de tudo, oferecer uma visão mais humana e mais consciente de quem somos.
E talvez seja isso que torna o Tarot tão fascinante: a sua capacidade de unir a profundidade psicológica à leveza poética, desafiando crenças antigas, actualizando as novas e mostrando que, quando o símbolo fala… o comportamento humano escuta.
Porque no fim, as cartas ensinam-nos uma verdade simples, somos nós que decidimos o que nasce das nossas crenças, tanto das verdadeiras, como das falsas.
Isabel Valente Gomes





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