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Maria Padilha: Entre o Mito, a História e a Memória – Um Lugar do Outro em Sevilha

  • 5 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

A figura de Maria Padilha, amante de Pedro I de Castela e símbolo de poder, transgressão e erotismo no imaginário ibérico, constitui um exemplo singular de como o património imaterial pode ser reinterpretado como lugar de memória e lugar do Outro. Embora historicamente vinculada à corte castelhana do século XIV e ao Real Alcázar de Sevilha, Maria Padilha transcende o tempo histórico, assumindo no presente um papel simbólico nas tradições espirituais afro-brasileiras, particularmente nas linhas da Umbanda e Quimbanda. Este trabalho propõe uma leitura crítica da figura de Maria Padilha como património cultural e espiritual, articulando as dimensões de género, alteridade e religiosidade popular. A criação de um roteiro temático ou memorial em Sevilha, integrando a memória histórica do Alcázar, o imaginário feminino e a espiritualidade contemporânea, permitiria um diálogo entre turismo, memória e Direitos Humanos, promovendo uma abordagem ética e inclusiva das narrativas patrimoniais.


Na contemporaneidade, o conceito de património ultrapassa a dimensão material e monumental, abrangendo práticas, símbolos e memórias que estruturam a identidade colectiva. Tal como refere Pierre Nora (1984), os lugares de memória surgem quando a continuidade entre passado e presente se rompe, exigindo novas formas de recordar. Ao lado dessa dimensão, a noção de “lugar do Outro” remete para a inclusão de vozes silenciadas, mulheres, povos colonizados, minorias religiosas, que historicamente foram excluídos da narrativa dominante. Neste enquadramento, Maria Padilha representa um caso paradigmático. Figura histórica e mítica, transita entre o palácio e o templo, entre a história e a lenda, entre a mulher demonizada e a divindade cultuada. O seu nome ecoa em Sevilha, no Real Alcázar, mas também nas encruzilhadas simbólicas das religiões afro-brasileiras. Pensar Maria Padilha como “lugar de memória e do Outro” implica reconhecer o seu poder de gerar identificação, controvérsia e resistência, três elementos centrais da patrimonialização contemporânea.


Historicamente, María de Padilla (1334–1361) foi amante e, segundo algumas fontes, esposa secreta de Pedro I de Castela, cognominado “o Cruel”. O seu nome ficou ligado à corte sevilhana e aos espaços do Real Alcázar, onde teria vivido e exercido influência política. Após a sua morte, Pedro mandou reconhecer o casamento e sepultou-a com honras reais, transformando-a num símbolo de amor e lealdade póstuma.Contudo, o mito popular reinventou Maria Padilha. No imaginário ibérico e latino-americano, ela tornou-se figura de sedução e feitiçaria, associada ao fogo, à luxúria e ao poder feminino marginal. Esta metamorfose simbólica, estudada por autores como Carolina Rocha (2019), reflecte os processos de apropriação cultural e de resistência espiritual das comunidades colonizadas, que reconfiguraram personagens europeias dentro das suas cosmologias afrodescendentes.


Nas religiões afro-brasileiras, especialmente na Umbanda e Quimbanda, Maria Padilha é uma entidade espiritual ligada à linha das Pombagiras, espíritos femininos que representam a sensualidade, a justiça e a libertação das mulheres. O seu culto é uma forma de dar voz ao feminino subalterno, à mulher rejeitada, à bruxa e à cortesã, arquétipos que o patriarcado ocidental relegou para a sombra.


A patrimonialização de figuras como Maria Padilha permite questionar as fronteiras entre o sagrado e o profano, o histórico e o mítico, o oficial e o popular. Segundo Michel de Certeau (1980), a memória social constrói-se nos interstícios entre as narrativas hegemónicas e as práticas quotidianas das comunidades. Nesse sentido, Maria Padilha é também um “lugar do Outro”, o outro enquanto feminino, enquanto espiritualidade marginal, enquanto corpo desejante que desafia a moralidade dominante.


A criação de um roteiro patrimonial em Sevilha, centrado em Maria Padilha, permitiria unir três dimensões fundamentais:

  1. A dimensão histórica, ancorada nos espaços do Alcázar e nas fontes medievais que documentam a sua vida.

  2. A dimensão simbólica, que explora as representações literárias, pictóricas e populares da figura feminina associada ao poder e à feitiçaria.

  3. A dimensão espiritual e contemporânea, que reconhece a persistência do seu culto em contextos afro-latino-americanos, onde a devoção a Maria Padilha se tornou veículo de expressão identitária e de libertação feminina.


Esta abordagem estaria em consonância com a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO (2003), que reconhece o valor das práticas culturais vivas e das expressões que fortalecem o diálogo intercultural e a diversidade.

O turismo cultural contemporâneo enfrenta o desafio de integrar uma dimensão ética, que vá além da fruição estética dos lugares. Tal como defende David Lowenthal (1998), a memória patrimonial deve promover a consciência crítica e não a nostalgia simplificadora. Um “Roteiro de Maria Padilha” poderia contribuir para esta consciência, ao articular género, poder e espiritualidade sob uma perspectiva plural e inclusiva.


Em vez de perpetuar a imagem da mulher sedutora e perigosa, o percurso poderia propor uma leitura feminista e descolonial, valorizando o papel das mulheres na história de Sevilha e o modo como o mito de Maria Padilha foi reapropriado pelas religiões afrodescendentes como símbolo de resistência. Ao fazê-lo, o turismo torna-se instrumento de reconciliação e empatia, reconhecendo a dignidade das culturas e das espiritualidades marginalizadas.


Esta proposta também se insere num movimento global de reinterpretação dos lugares de memória à luz dos Direitos Humanos, onde o património é compreendido como expressão de identidades múltiplas e partilhadas. Como lembra Françoise Choay (2001), o património não é apenas um legado, mas um processo contínuo de atribuição de sentido. Nesse processo, o reconhecimento do “Outro” é condição essencial para uma sociedade mais justa e plural.

Pensar Maria Padilha como figura patrimonial e lugar do Outro é reconhecer o poder transformador da memória. O seu percurso, da amante real à entidade espiritual, da marginalidade à devoção, traduz a capacidade das culturas de ressignificar o passado e de gerar novos sentidos de pertença.


A proposta de um memorial ou roteiro temático em Sevilha, centrado na sua figura, não pretende apenas celebrar um mito, mas questionar as narrativas dominantes sobre género, poder e religião. Ao integrar as vozes femininas e afrodescendentes na leitura patrimonial, o turismo torna-se ferramenta de inclusão e justiça simbólica, em consonância com os princípios dos Direitos Humanos e com uma ética do encontro intercultural.

Assim, Maria Padilha deixa de ser apenas uma personagem do passado e torna-se um símbolo vivo da alteridade, um espelho onde o património se reencontra com a dignidade e a diversidade humanas


Bibliografia

  • Certeau, M. de (1980). L’Invention du Quotidien. Paris: Gallimard.

  • Choay, F. (2001). A Alegoria do Património. Lisboa: Edições 70.

  • Lowenthal, D. (1998). The Heritage Crusade and the Spoils of History. Cambridge University Press.

  • Nora, P. (1984). Les Lieux de Mémoire. Paris: Gallimard.

  • Rocha, C. (2019). Entre a Santa e a Feiticeira: Maria Padilha no Imaginário Ibérico e Afro-brasileiro. São Paulo: Edusp.

  • UNESCO (2003). Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial. Paris: UNESCO.

  • Vainfas, R. (2002). Trópico dos Pecados: Moral, Sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Companhia das Letras.

  • Pinho, P. (2010). Mama Africa: Reinventing Blackness in Bahia. Duke University Press.

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