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Quando a dor procura respostas: ética, vulnerabilidade e espiritualidade

10 de set.
10 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


Até onde podemos ir quando alguém nos entrega a sua dor?

Talvez por ser mãe e ter filhos com idades próximas das de alguns jovens que, nos últimos anos, têm perdido a vida de forma súbita e trágica, dou por mim cada vez mais atenta a estas notícias.

Há acidentes e acontecimentos que nos chegam através de um ecrã e que, por alguma razão, deixam de ser apenas uma notícia. Os nossos filhos conhecem alguém que conhecia aquele jovem. Frequentam os mesmos lugares. Têm amigos em comum. Poderiam estar naquele contexto, naquela estrada, naquela noite.

E, inevitavelmente, por breves segundos, fazemos aquilo que nenhum pai ou mãe quer fazer: colocamos os nossos filhos naquele lugar.

Não pretendo, naturalmente, afirmar que consigo compreender a dor de uma mãe ou de um pai que perde um filho. Creio, aliás, que seria profundamente injusto fazê-lo. Posso apenas reconhecer, a partir do lugar de mãe, uma ínfima dimensão do que representa o impensável.

Talvez seja também por isso que algumas situações me têm feito pensar cada vez mais numa questão que considero urgente dentro das práticas espirituais, simbólicas e holísticas:


Até onde podemos ir quando alguém nos entrega a sua dor?


Quando não existe uma resposta suficiente

Cresci numa família onde esta realidade existia.

Os meus avós perderam uma filha com apenas 18 anos.

A minha tia permaneceu, naturalmente, presente na nossa história familiar. Uma pessoa não desaparece da memória de uma família simplesmente porque morreu. Permanece nas fotografias, nas conversas, nas histórias, nas datas e, sobretudo, nas pessoas que a amaram.

E hoje sabemos que esta permanência não deve ser confundida, necessariamente, com uma incapacidade de fazer o luto.

Durante muito tempo prevaleceu a ideia de que um processo de luto saudável implicaria um progressivo desligamento emocional da pessoa falecida. A investigação contemporânea veio questionar essa conceção. O conceito de “vínculos continuados” — continuing bonds — descreve precisamente a possibilidade de a relação emocional e simbólica com quem morreu ser transformada e integrada na vida de quem fica.

Recordar, falar sobre a pessoa, conservar determinadas tradições, transmitir as suas histórias ou encontrar formas simbólicas de manter a ligação podem fazer parte de um processo adaptativo de luto.

Portanto, fazer o luto não significa esquecer. Significa aprender a integrar uma ausência numa vida que continua.

Os meus avós procuraram respostas. Procuraram-nas também em contextos espíritas e receberam, ao longo do tempo, diferentes explicações: que a filha ainda não estava preparada para comunicar, que estaria noutro lugar, que teria reencarnado.

Eu era criança.

Não possuía os instrumentos, o conhecimento ou o sentido crítico necessários para compreender aquelas afirmações enquanto crenças ou interpretações. Para mim, eram informações dadas por adultos sobre uma realidade que eu tentava compreender. E, por isso, fazia perguntas.

Se a minha tia estava noutro lugar e sabia onde estávamos, porque não vinha ter connosco?

Se gostava tanto da família, porque não nos procurava?

Mais tarde, quando cresci e comecei a perceber que eu própria já teria idade e autonomia para procurar a minha família caso estivesse afastada dela, surgiu outra pergunta, talvez ainda mais difícil: Será que já não se lembra de nós? Será que já não gosta de nós?

Hoje consigo olhar para aquelas perguntas com os instrumentos de uma adulta. A criança que as fazia não conseguia. E esta memória ensinou-me algo que considero fundamental: uma resposta criada para apaziguar uma dor pode criar outras perguntas e essas perguntas também têm consequências.


A necessidade humana de encontrar significado

Não há nada de estranho na procura de respostas perante a morte. Pelo contrário.

A investigação sobre o luto tem atribuído uma importância crescente precisamente à construção de significado. Perante uma perda significativa, podemos tentar reconstruir a compreensão que tínhamos da vida, de nós próprios e do mundo. Procuramos perceber o que aconteceu, reorganizar a nossa identidade e encontrar uma forma de integrar um acontecimento que rompeu a narrativa que existia até então.

Nos estudos realizados com pais enlutados, por exemplo, aparecem diferentes processos de construção de significado: tentar compreender a morte, reconstruir a própria identidade e encontrar formas de manter uma ligação com o filho que morreu.

Isto ajuda-nos a compreender porque determinadas perguntas podem tornar-se tão importantes:

  • Porquê?

  • Porquê ele?

  • Porquê ela?

  • Porquê agora?

  • Havia alguma razão?

  • Sofreu?

  • Está bem?

  • Continua de alguma forma perto de mim?

  • Voltarei a encontrá-lo?

Não considero que estas perguntas sejam sinal de fragilidade, ingenuidade ou falta de racionalidade. São profundamente humanas.

Também não considero que a espiritualidade seja necessariamente incompatível com um processo saudável de luto. Crenças religiosas, espirituais, rituais, memórias e diferentes formas de vínculo simbólico podem integrar a maneira particular através da qual cada pessoa procura dar significado à perda.

Aliás, uma das grandes alterações na compreensão contemporânea do luto consiste precisamente em reconhecer que não existe uma única maneira universal de viver uma perda nem uma sequência rígida de etapas que todos tenham obrigatoriamente de cumprir.

O problema que me interessa discutir não está, portanto, na crença.

Está naquilo que fazemos com a vulnerabilidade de alguém a partir das nossas próprias crenças.


A minha crença pertence-me. Mas o que acontece quando a transformo na realidade do outro?

Há uma diferença que considero essencial.

Uma pessoa pode acreditar: “Um dia voltarei a encontrar o meu filho.” Essa crença pertence-lhe. Pode ajudá-la a viver, a encontrar significado ou simplesmente a suportar uma ausência insuportável.

Outra situação ocorre quando alguém, investido de determinada autoridade espiritual, lhe diz:

  • “O seu filho não está preparado para falar consigo.”

  • “Está revoltado.”

  • “Não está em paz.”

  • “Não consegue aproximar-se.”

  • “Já reencarnou.”

  • “Hoje não conseguiu comunicar.”

Independentemente da crença de quem transmite estas mensagens, há uma questão ética que não pode ser ignorada: o que é que esta informação fará à pessoa que a recebe?

  • Ajudá-la-á?

  • Trará serenidade?

  • Ou acrescentará uma nova preocupação à dor que já transporta?

Porque alguém que entrou numa consulta pensando: “Perdi o meu filho.”

pode sair dela pensando: “Perdi o meu filho e, além disso, ele está revoltado, não está em paz e não consegue falar comigo.”

  • Criámos conforto?

  • Ou acrescentámos sofrimento?

A própria investigação sobre os vínculos continuados recomenda-nos alguma prudência perante respostas demasiado simples. Manter uma ligação interior ou simbólica com quem morreu pode ser vivido de forma positiva, mas a relação entre esses vínculos, a construção de significado e a adaptação ao luto é complexa. Não basta, portanto, afirmar que qualquer forma de manutenção da ligação é, por definição, benéfica.

E esta distinção interessa-me particularmente.

Uma coisa é a pessoa construir o seu próprio vínculo com quem morreu. Outra é alguém construir esse vínculo por ela e apresentar-lhe informações sobre aquilo que o falecido alegadamente pensa, sente, quer ou recusa.


“Mas eu acredito verdadeiramente no que estou a dizer”

Esta talvez seja uma das questões mais difíceis dentro dos meios espirituais e holísticos.

E merece ser tratada com respeito.

Admitamos que quem transmite determinada mensagem acredita absolutamente nela. Não existe intenção de enganar. Não existe má-fé. A pessoa está genuinamente convencida de que aquilo que percebeu, sentiu ou interpretou corresponde à realidade.

Isso resolve a questão ética?

Creio que não. A sinceridade de uma crença pode explicar uma conduta. Não basta, por si só, para a tornar ética.

Também um tarólogo pode acreditar profundamente que determinada combinação de cartas anuncia uma morte, uma doença ou uma tragédia. A questão ética não é apenas saber se acredita naquilo que está a interpretar. Existe uma pergunta anterior:

Tenho o direito de entregar esta interpretação ao outro como uma certeza?

E, sobretudo: que consequências previsíveis poderá aquilo que digo provocar nesta pessoa?

A responsabilidade não desaparece porque existe convicção.


Quanto maior a vulnerabilidade, maior deve ser a responsabilidade

O luto é uma experiência humana e não deve ser automaticamente transformado numa doença.

A maioria das pessoas atravessa processos de luto sem desenvolver necessariamente uma perturbação psicológica. Existem, contudo, situações em que o sofrimento se torna persistente e profundamente incapacitante. A própria psicologia e a psiquiatria distinguem atualmente as respostas esperadas ao luto de situações como a Perturbação de Luto Prolongado, que requer avaliação adequada.

Isto torna particularmente importante não confundirmos funções.

Um médium não é, por ser médium, psicólogo. Um tarólogo não é, por ser tarólogo, psicoterapeuta. Um terapeuta holístico não adquire, pela utilização dessa designação, competência para diagnosticar ou tratar sofrimento psicológico.

Podemos acolher. Podemos escutar. Podemos trabalhar dentro das nossas competências.

E devemos saber reconhecer quando aquilo que temos à nossa frente exige outro tipo de acompanhamento.

Uma pessoa profundamente enlutada pode estar a atravessar dor intensa, culpa, desorientação e uma enorme necessidade de encontrar uma explicação ou simplesmente uma frase que torne possível suportar mais um dia.

E é precisamente aqui que surge uma assimetria importante. Quem procura ajuda reconhece no outro algum tipo de conhecimento ou capacidade que acredita não possuir.

O médium afirma ou acredita conseguir aceder àquilo a que a pessoa não consegue aceder. O tarólogo interpreta uma linguagem que o consulente pode desconhecer. O terapeuta domina determinadas técnicas. O orientador espiritual ocupa igualmente um lugar de autoridade.

Essa relação cria poder. E todo o poder exige responsabilidade.

Por isso, talvez devêssemos começar a assumir um princípio simples: quanto maior a vulnerabilidade de quem nos procura, maior deve ser a responsabilidade ética de quem o recebe.

Não o contrário.


Consolar não é necessariamente cuidar

Esta distinção parece-me particularmente importante.

Uma afirmação pode produzir alívio imediato e, ainda assim, ter consequências negativas posteriormente. Dizer a alguém que o familiar falecido está presente, mas ainda não consegue comunicar, pode proporcionar naquele momento uma explicação para a ausência de contacto.

  • Mas o que acontece amanhã?

  • Quando estará preparado?

  • Porque não está?

  • Está a sofrer?

  • Está zangado comigo?

  • Há alguma coisa que eu possa fazer?

  • Devo tentar novamente?

  • E daqui a um mês?

A resposta que pretendia encerrar uma pergunta pode ter aberto muitas outras.

É importante esclarecer aqui que algumas pessoas enlutadas relatam espontaneamente experiências de presença, sonhos, sensações ou outras experiências relacionadas com quem morreu. Estas experiências têm sido estudadas na literatura científica e não devem, por si só, ser automaticamente patologizadas.

Mas existe novamente uma diferença fundamental: uma experiência que emerge da própria pessoa não é equivalente a uma afirmação introduzida por um terceiro com autoridade sobre aquilo que o falecido alegadamente está a sentir ou a querer.

É precisamente essa diferença que nos obriga a pensar eticamente.

E é aqui que surge também uma questão particularmente delicada quando estas práticas constituem serviços pagos. Cobrar por um trabalho não torna uma prática antiética. O tempo, o conhecimento e o trabalho das pessoas têm valor. Mas quando juntamos sofrimento intenso, promessa explícita ou implícita de acesso ao falecido, autoridade espiritual e possibilidade de repetição paga, temos obrigação de questionar os limites.

  • “Hoje não está preparado para comunicar.”

  • Então quando estará?

  • Será necessária outra sessão?

  • E outra?

  • Quem determina quando termina esta procura?

  • Existe um risco de dependência?

São perguntas incómodas.

Mas ética também é ter coragem para fazer perguntas incómodas.


Talvez “não sei” seja, por vezes, a resposta mais responsável

Vivemos numa cultura pouco confortável com a ausência de respostas. Queremos explicar. Queremos encontrar significado. Queremos aliviar a dor de quem está à nossa frente. E, muitas vezes, fazemos isso com a melhor das intenções.

Mas existem acontecimentos para os quais talvez não haja uma resposta capaz de nos satisfazer. Uma morte prematura é injusta. Uma morte súbita pode parecer absurda.

A perda de um filho contraria aquilo que esperamos da própria ordem da vida. Talvez não exista uma frase que transforme isso numa realidade aceitável. E talvez não tenhamos de fabricar uma. Há uma humildade enorme em conseguir dizer: “Não sei.”

Não sei onde está. Não sei por que aconteceu. Não sei se existe uma razão. Não sei o que existe depois. Posso estar aqui. Posso ouvir. Posso respeitar aquilo em que acredita. Posso ajudá-lo, dentro das minhas competências, a encontrar recursos para continuar. Mas não preciso de preencher o desconhecido com uma certeza apenas porque o silêncio é difícil de suportar.


Espiritualidade não pode significar ausência de limites

Trabalho há muitos anos num universo ligado ao Tarot, ao simbolismo, ao desenvolvimento humano e às práticas holísticas. É precisamente por estar dentro deste meio que considero que estas questões precisam de ser discutidas.

Não acredito que defender ética implique retirar espiritualidade ao Tarot ou às práticas simbólicas. Também não considero necessário ridicularizar crenças, negar experiências pessoais ou dividir o mundo entre “os que acreditam” e “os que não acreditam”.

Essa discussão interessa-me muito menos do que outra: O que fazemos com aquilo em que acreditamos quando temos à nossa frente uma pessoa vulnerável?

A minha crença não me concede autoridade ilimitada sobre a realidade emocional do outro. A minha intuição não elimina a minha responsabilidade. A minha convicção não transforma automaticamente uma interpretação numa verdade que deva ser transmitida. E o facto de alguém me procurar voluntariamente não significa que me tenha dado autorização para interferir sem limites na forma como compreende a sua vida, a sua doença, a sua família ou os seus mortos. Podemos preservar o mistério e, simultaneamente, preservar o sentido crítico.

Uma coisa não destrói a outra.


Precisamos de literacia ética

Talvez não seja possível impedir que existam práticas irresponsáveis. Mas podemos ensinar as pessoas a reconhecê-las. Podemos aprender a fazer algumas perguntas depois de uma consulta, sessão ou acompanhamento:

  • Saio daqui mais autónomo ou mais dependente?

  • Foi-me apresentada uma possibilidade ou uma certeza absoluta?

  • Aquilo que ouvi ajuda-me a lidar com a minha realidade ou aumentou o meu medo?

  • Foram respeitados os limites de competência de quem me acompanhou?

  • Sinto que preciso de regressar porque quero continuar um processo ou porque tenho medo do que acontecerá se não regressar?

  • Recebi ferramentas ou entreguei ainda mais poder sobre a minha vida a outra pessoa?

Estas perguntas não combatem espiritualidade. Combatem ausência de sentido crítico. E talvez o conhecimento seja uma das melhores formas de proteção que podemos oferecer às pessoas, tanto a quem procura estes serviços como a quem os presta. Porque profissionais responsáveis também precisam de aprender a reconhecer o impacto que uma palavra pode ter.


Até onde podemos ir com a dor do outro?

Volto, finalmente, à criança que fui. Hoje não preciso de saber porque é que a minha tia não nos veio procurar. Não preciso de saber onde estava. Nem preciso de saber se alguém conseguia ou não comunicar com ela. Se pudesse regressar àquela criança que tentava encontrar lógica nas explicações dos adultos, talvez lhe dissesse apenas: “Ninguém sabe exatamente o que acontece depois da morte. Há pessoas que acreditam em coisas diferentes. Mas há uma coisa que sabemos: a tua tia fez parte desta família, foi profundamente amada e morrer não significa que tenha deixado de vos amar.” Talvez tivesse sido suficiente.

Porque nem todas as dores precisam de uma explicação.

Algumas precisam de tempo, acompanhamento, memória, significado, ferramentas para continuar e, sobretudo, de pessoas suficientemente responsáveis para não transformarem a necessidade humana de uma resposta numa oportunidade para oferecer certezas onde elas não existem.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se acreditamos no Tarot, na mediunidade, na espiritualidade ou no invisível.

A pergunta que verdadeiramente me interessa é outra:


Quando alguém nos entrega a sua dor, o que fazemos com a confiança que colocou nas nossas mãos?


Talvez seja aí que comece a ética.



Referências para aprofundamento

American Psychological Association. APA Dictionary of Psychology: Continuing Bond.

Jordan, A. H., & Litz, B. T. (2014). Prolonged Grief Disorder: Diagnostic, Assessment, and Treatment Considerations. Professional Psychology: Research and Practice, 45(3), 180–187.

Klass, D., Silverman, P. R., & Nickman, S. L. (Eds.). (1996). Continuing Bonds: New Understandings of Grief. Taylor & Francis.

Neimeyer, R. A. (Ed.). (2001). Meaning Reconstruction and the Experience of Loss. American Psychological Association.

Goodall, R., Krysinska, K., & Andriessen, K. (2022). Continuing Bonds after Loss by Suicide: A Systematic Review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 19(5).

Meert, K. L. et al. (2015). Meaning Making during Parent-Physician Bereavement Meetings after a Child's Death. Health Psychology.

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