top of page

O Tarot como espelho universal da alma entre o amor e a dor

  • 10 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

Existem temas que nos escolhem antes de os escolhermos. O amor e a dor são dois deles, insistentes, persistentes e, por vezes, teimosos. Talvez porque, quer queiramos quer não, obrigam-nos a olhar para aquilo que somos e para aquilo que preferimos ignorar. O Tarot, claro, está lá para nos lembrar isso… sempre com aquela elegância simbólica de quem diz tudo sem levantar a voz.

Ao observarmos diferentes culturas, percebemos que o amor nunca é universal na forma, apenas na intensidade. Entre os Trobriand, estudados por Malinowski, o amor é dançado, perfumado e adornado, é sensualidade em rito. Já entre os Azande, analisados por Evans-Pritchard, o amor é sussurrado, simbólico, escondido em músicas, trocas de gado e práticas mágicas usadas para lidar com ciúme e frustração. Nada de “mensagens de madrugada”, aqui resolve-se tudo com rituais.

Na nossa sociedade contemporânea, porém, o amor é hiper verbalizado, através de emojis, stories, declarações inspiracionais, silêncios prolongados e claro está, desilusões à velocidade de um deslizar de dedo. A paixão nasce numa notificação; morre num “visto às 22:41”.

É neste cenário que Maslow nos lembra: a maioria das pessoas vive ali, a meio da pirâmide, entre o medo de perder e o desejo de ser amada. E é exactamente nesse espaço que o Tarot se torna precioso. Quando os Enamorados surgem, não falam de destino, falam de escolha. E poucas coisas assustam tanto o ser humano como ter de escolher… sobretudo quando o coração não tem botão de pausa.

Ester Perel, com a sua lucidez afiada, diz-nos que muitas traições não são ausência de amor, são um grito de vitalidade, uma procura por versões de nós mesmos que deixámos para trás. O Tarot ecoa esta tensão. Vejamos, o Diabo mostra o desejo que aprisiona, a Temperança lembra-nos do equilíbrio, e o Mundo assinala a possibilidade de transcendência, aquela que só chega depois de muita honestidade e, às vezes, muita lágrima.

O modelo PAPI ajuda-nos a perceber como cada pessoa comunica, reage e se vincula, uns fogem (Ar), outros dramatizam (Água), outros controlam (Terra) e alguns incendeiam tudo (Fogo). O Tarot conhece-os a todos e mostra-nos que cada elemento ama de forma diferente.

Até a economia comportamental entra na dança. No amor, fazemos sempre contas:

  • custo-benefício,

  • risco - retorno,

  • perda potencial,

  • investimento emocional.

Mas, realisticamente, o amor raramente dá lucro. Pelo menos não o financeiro. O lucro é outro: crescimento, consciência e alma.

O Tarot acompanha-nos neste caminho, a Lua mostra ilusões e medos, a Torre marca rupturas inevitáveis, o Eremita ilumina a introspeção, a Estrela abre espaço à esperança, e o Mundo celebra a integração, aquele momento sublime em que percebemos que tudo valeu a pena, mesmo o que doeu.

O amor não existe no vazio. É moldado pelo contexto, como nos ensina Bronfenbrenner, família, cultura, trabalho, sociedade, tudo influencia quem amamos, como amamos e o quanto conseguimos tolerar. E, tal como Inácio de Loyola rezava com a imaginação, também nós podemos meditar com as cartas, usando-as como portais para o perdão, para a resiliência e para a cura.

Entre o amor e a dor existe um espaço sagrado, o espaço onde a alma aprende. O Tarot não prevê destinos, revela o que ainda temos de amar em nós. E, se a vida não nos dá finais felizes, podemos sempre escrever um epílogo bonito.


Isabel Valente Gomes

 
 
 

Comentários


bottom of page