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Um olhar sociológico sobre o filme ''Cidade de Deus''

Atualizado: 11 de mar. de 2022

Para a sociologia, o filme ‘’Cidade de Deus’’ é de uma riqueza imensa. Expõe à luz uma perspetiva formulada através da análise dos processos migratórios e dos processos de socialização dos grupos desviantes.


Conceitos como estes aliados a muitos outros, interligam-se formando quase que um ciclo vicioso implícito ao longo de todo o filme, onde são percetíveis formas de sociabilização e de resistência cultural ainda que bastante precárias. A sociabilidade degrada-se na mesma proporção em que se dá a degradação do espaço urbano.

Buscapé é um jovem negro, fotógrafo do Jornal do Brasil, morador da Cidade de Deus desde a sua formação na década de 1960, este, narra a evolução desta favela do Rio de Janeiro desde o surgimento do primeiro gang de assaltantes, até primórdios dos anos 80, onde o negócio principal é a ‘’boca de fumo e narcotráfico’’, acompanhamos assim através das aventuras de Buscapé o desenvolvimento da marginalizada favela. .A favela Cidade de Deus é, em si, um pequeno mundo, de barbárie, imerso num estado de natureza e o filme relata quase trinta anos de história do Brasil, onde expõe um universo real e infernal de dissolução social assolado pela pobreza.

De acordo com Worsley, 1977 o comportamento humano aprende-se na sociedade pela interação e comunicação com outros seres humanos de uma cultura imaterial e material ao longo de gerações. Uma vez que esta cidade foi construída de modo a concentrar todos os possíveis candidatos a desordeiros da civilidade e da norma. Os discriminados são obrigados a viver em casas de madeira, sem condições sanitárias, água, luz e esgotos. Surge assim, uma vontade de lutar pela sobrevivência, recorrendo à violência, ao roubo, à venda de droga. A única saída é seguir os caminhos amargos do crime, que levam na maioria das vezes, à morte. O individuo inserido nesta sociedade é convidado a tomar parte nesta desta realidade uma vez que é o que é interiorizado através do pai, mãe, primos, irmãos, vizinhos, como socialização primária a mais importante e impactante para o individuo, pois funciona esta funciona como estrutura básica da secundária. Segundo Berger e Luckmann 2004, estar em sociedade significa participar na dialética da sociedade.

Desde que um grupo de rapazes da Cidade de Deus se uniu para roubar, matar e vender droga e o faz consecutivamente, deixa de haver uma única transgressão da norma e forma-se um ciclo de várias “aprendizagens” que resulta numa reação societária, fica assim estabelecido um nexo de motivações que se prolongam com uma identificação mútua, partilham do ser do outro. O individuo adquire a sua identidade, o sentimento de pertença à sua família, grupos e uma identidade geral mais ou menos comum a todos os membros que fazem parte da sua sociedade.

Crianças aprendem a viver no meio da miséria, do crime, do roubo, da droga, assim se dão os processos de socialização. Crescem quase sem ir à escola, em famílias semi-presentes, que apesar de tudo tentam puxá-los para o bom caminho, com uma consciência impotente e no fundo, resignada. Querem chegar a adolescentes, afirmando que “já fumei, cheirei, matei e roubei. Já sou homem.” Tendem a seguir o seu grupo de referência. Crescem a aprender a manusear armas reais como se de brinquedos se tratassem. Todo este processo de socialização não encaixa no processo de muitas crianças e jovens de sociedades desenvolvidas. Quase não existe uma socialização primária, junto do seio familiar que transmite os primeiros ensinamentos, quase não existe uma socialização secundária incluindo o papel da escola no incentivo ao estudo, com desejo futuro de ascensão social; às regras e guarda de crianças e jovens, existe apenas um único fio condutor, uma lição de vida guiada pelas influências muito fortes do grupo de pares e por todo o ambiente de vivência num gueto, num bairro apelidado de social. Os vários agentes de socialização são assim substituídos unicamente pelos grupos de pertença, de pares.

O filme relata também a construção de distintos papéis e posições sociais, ainda que estes sejam resultantes da mesma estrutura societária. Num extremo temos Buscapé que sempre foi ‘’bom menino’’ embora irmão de um membro do grupo marginal inicial, relatado no filme, ao ser seguidor das boas normas sociais, sempre foi esperado deste pelo seu papel, um bom comportamento social, mesmo no momento em que se tentou render às leis da sociedade criminal onde estava inserido, tentando efetuar a prática de alguns assaltos sem sucesso. No outro extremo temos um elemento de defesa da maldade inata, no desenvolvimento da sua personalidade cruel e sádica, Zé Pequeno, desde criança e na construção social do indivíduo, era sempre esperado o pior comportamento, desde a infância as suas demandas eram sempre violentas, quando em idade adulta e na atitude de se afirmar como um líder na Cidade de Deus, toma posições e dita regras de grande violência e força, as sanções por ele impostas ao não cumprimento das suas regras eram ainda piores, usava a violência extrema sem olhar a idade, relação ou papel social representado pelo infractor.

Ainda que reine a violência, morte e droga na Cidade de Deus, existe uma coesão social pois há uma definição explícita dos papéis e posições sociais ocupadas, temos como exemplo a relação de Buscapé e Zé Pequeno, ainda que em extremos diferentes, devido ao social papel que ambos representam sempre se respeitaram. Também é notório no filme a ausência do Estado político, que só aparece para reprimir ou corromper.

Temos ainda presente na história um caso com relevante importância sociológica na análise dos papéis sociais e de conflito de papéis sociais. Quando Buscapé tenta assaltar o autocarro não o consegue fazer pois o cobrador era um homem de bem, com uma boa estrutura societária, até que um dia Zé Pequeno se enamora pela namorada deste em mais uma das suas atitude decorrentes de violência para conseguir o que quer e demonstrar poder, dispara contra a casa do cobrador matando o seu irmão. A morte era o ordem do dia na Cidade de Deus, a morte para vingar inocentes e não inocentes, à morte por roubo de poder, o que leva o cobrador a junta-se à boca-de-fogo do Cenoura, concorrente de Zé Pequeno, ainda que no início desta relação tentasse conciliar os dois papéis, em pouco tempo o cobrador no seu conflito de papéis passa de cidadão idóneo a consumidor de drogas e assassino tal como todos os outros, autodestruindo o seu papel idóneo.

Socialmente, a Cidade de Deus, encontra-se infinitamente distante da sociedade geral é quase um país independente, uma zona selvagem, caracterizada por uma sociedade civil em colapso, um local de expurgo, onde a classe política despeja o seu lixo, tornando-se assim num resíduo social.

Neste cenário, em que uma vida vale tão pouco, ou quase nada; não somente os gangs, mas também a polícia tem o poder de matar sem impunidade na Cidade de Deus. Consequentemente, as fronteiras entre o legal e o ilegal são instáveis e o sistema judicial e politico, não se legitima, a situação de estar ao abandono, de estar isento do domínio da lei e da responsabilidade ética, faz com que seus habitantes vivenciem, o famoso provérbio popular brasileiro "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come".

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